"Marquem bem isso, vocês, orgulhosos homens da ação! Vocês são, no final, nada mais que instrumentos inconscientes dos homens que pensam."
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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Quem tem poder
Análise, Brasil de Fato
Posso prescindir do poder do chefe de uma empresa, desde que não trabalhe nela. Mas não posso prescindir de quem detém o poder político.
Frei Betto
Tem poder toda pessoa ou instituição capaz de decidir os rumos de nossas vidas. Isto é poder: é capaz de empregar-nos ou desempregar; aumentar ou reduzir o salário; oferecer ou não melhores sistemas de saúde e educação.
Não me interessa o poder dos marajás da Índia ou dos biliardários árabes. Não influem em minha existência. Sou indiferente ao poder do presidente da França ou do primeiro-ministro da Itália. Porém, toca-me o poder do presidente dos EUA, tamanha a influência econômica, ideológica e militar deste país no planeta. Vale adicionar à lista seu peso no meio ambiente, no avanço da ciência e no aprimoramento da tecnologia.
Poderoso é aquele que me salva ou condena, insere ou exclui, gratifica ou pune.
Posso prescindir do poder do chefe de uma empresa, desde que não trabalhe nela. Mas não posso prescindir de quem detém o poder político. Ainda que ele não tenha sido eleito pelo meu voto. Toda decisão política influi no conjunto da sociedade. Para o bem ou para o mal, depende do ponto de vista de quem é beneficiado ou prejudicado.
Por isso convém estar atento: quem tem nojo de política é governado por quem não tem. E tudo que os maus políticos querem é a maioria da população indiferente ao fato de fazerem na vida pública o que fazem na privada...
Como me relaciono com a pessoa que, próxima a mim, detém poder sobre meu destino? Eis uma questão que, infelizmente, Freud e seus sucessores não aprofundaram tanto como o fizeram os dramaturgos gregos na Antiguidade, Shakespeare e nosso Machado de Assis.
A tendência é o subalterno, quando mais apegado à função que a seu espírito crítico, se infantilizar frente ao superior: ri do que não tem a menor graça, elogia o que não merece consideração, procura adivinhar-lhe gostos e preferências. Trata-se de um jogo típico de criança que se esforça por seduzir o adulto para, em troca, obter carinho e realização de suas aspirações.
Muitos que detêm o poder nutrem seus egos graças à corte de bajuladores. E tendem a não aceitar que o critiquem. Se alguém se atreve a fazer-lhes crítica, há que, primeiro, escolher cuidadosamente as palavras, de modo a não ferir-lhes a sensibilidade, assim como uma agulha é capaz de fazer estourar um balão.
A maioria se cala diante do poderoso, ainda que lhe conheça contradições e defeitos. Raras as pessoas que, em cargos de chefia, ousam repetir a iniciativa de um gerente de empresa que, uma vez ao mês, reservava uma hora para ouvir críticas de seus subordinados. E ainda mantinha uma caixa de correspondência para quem preferisse fazê-lo anonimamente.
Segundo ele, a opinião que temos de nós mesmos e de nosso desempenho quase nunca confere com a de quem conosco convive. Saber ouvir críticas é um ato de humildade e tolerância. Humildade deriva de húmus, terra; humilde não é o bobo e sim quem mantém os pés no chão, sem voos egolátricos nem se deixar atolar na baixa autoestima.
Muitos defeitos poderiam ser corrigidos em instituições e empresas se os funcionários e subalternos tivessem canais para expressar críticas e sugestões. Em que hospital os pacientes avaliam os médicos? Em que escola os alunos dão notas aos professores? Em que igreja os fiéis questionam seus bispos e pastores?
Há pessoas, em especial na esfera da política, que só se sentem bem imantadas pela aura do poder. Quando estão próximas, demitem-se de qualquer consciência crítica e agem ridiculamente como papagaios de pirata, sempre se empenhando para se dependurarem no ombro do poderoso.
Porém, se as circunstâncias as distanciam do poder, sentem-se humilhadas, desprezadas, e deixam-se entupir de mágoas e iras. O poderoso ontem bajulado passa a ser objeto de críticas mordazes. É a síndrome da expulsão do Paraíso...
O melhor antídoto à sedução do poder é a espiritualidade. Não apenas no sentido religioso, mas sobretudo no que concerne ao aprofundamento subjetivo de valores éticos. Quem gosta de si mesmo não precisa mendigar o olhar alheio. Nem sempre prestamos atenção no preceito de Jesus: “Amar o próximo como a si mesmo.” Se não tenho boa autoestima, dificilmente saberei encarar o próximo com benevolência e compaixão.
Muitos caminhos conduzem a essa conquista interior. Para mim, a mais pedagógica é a meditação, esse silencioso exercício de deixar que Deus me habite para que eu possa abrir portas do coração e janelas da mente aos semelhantes e à natureza.
Frei Betto é escritor, autor de “A mosca azul – reflexão sobre o poder” (Rocco), entre outros livros .www.freibetto.org – twitter:@freibetto
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Mídia rica, democracia pobre
Com o término das eleições nos EUA, o maior vencedor ainda não foi declarado, porque a vitória foi dos grandes meios de comunicação.
Amy Goodman
Democracy Now, Análise - Brasil de Fato.
Com o término das eleições de metade de mandato nos Estados Unidos, o maior vencedor ainda não foi declarado, porque a vitória foi dos grandes meios de comunicação. O maior perdedor, por enquanto, tem sido a democracia. Estas eleições legislativas de metade de mandato foram as mais caras na história dos Estados Unidos: custaram quase USd 4 bilhões de dólares, dos quais USd 3 bilhões foram gastos em publicidade. Pergunto o que aconteceria se o tempo publicitário para as campanhas fosse gratuito. Não se ouvem debates a este respeito, e não se ouvem porque as corporações (conglomerados empresariais, em geral, transnacionais) que manejam (e manipulam e controlam) os meios de comunicação de massa obtêm imensos ganhos com os anúncios publicitários das campanhas políticas. No entanto, as ondas hertzianas (que trafegam pelo espectro radioelétrico) utilizadas pelas empresas de mídia para emitir seus sinais são públicas.
Isto me recorda o livro escrito em 1999 pelo especialista em meios de comunicação Robert McChesney: “Rich Media, Poor Democracy” (Meios ricos, democracia pobre). Em seu livro, McChesney escreve: “Os radiodifusores têm pouco incentivo para brindar cobertura aos candidatos já que resulta de seu interesse forçá-los a publicitar suas campanhas.”
O grupo de investigação Wesleyan Media Project (Projeto de Wesleyano de Mídia), da Universidade Wesleyan, faz um acompanhamento da publicidade política. Depois da recente sentença da Suprema Corte no caso “Citizens United contra a Comissão Federal Eleitoral” pelo qual se autoriza às grandes corporações (conglomerados empresariais) a destinar somas ilimitadas de dinheiro à campanha publicitária dos candidatos, o projeto de pesquisa sobre o comportamento da mídia destaca que: “O tempo de transmissão destinado a publicidade tem-se saturado de anúncios relacionados com a Câmara de Representantes (deputados federais) e o Senado, que ocupam até 20% e 79%, respectivamente, do total de tempo que as TVs estão no ar”.
Evan Tracey, fundador e presidente do grupo de análise de campanhas publicitárias Campaign Media Analysis Group (Grupo de Análise das Campanhas na Mídia), predisse no passado mês de julho (de 2010), em declarações para o jornal USA Today, que: “Haverá mais dinheiro para ser investido do que espaço de transmissão para ser comprado”. Por sua vez, John Nichols, do semanário The Nation, comentou que nos amáveis primeiros tempos da publicidade política televisiva, os canais de TV nunca teriam permitido a transmissão de um anúncio a favor de um candidato, seguido de outro anúncio, apoiando o candidato concorrente (obs. do tradutor: as eleições parlamentares estadunidenses são distritais). Essa constatação, não levava em conta o patrimônio acumulado dos grandes meios. Mas, nos dias de hoje, veicular anúncios políticos é como alugar um imóvel. Bem vindos ao “mundo feliz” das campanhas feitas com bilhões de dólares.
No passado, já houve intentos de regular o uso das ondas hertzianas trafegando pelo espectro radioelétrico para que estejam a serviço da população durante as eleições. Nos últimos anos, a tentativa mais ambiciosa ficou conhecida como “Reforma do financiamento das campanhas eleitorais de McCain-Feingold”. Durante o debate sobre esta histórica legislação, tanto democratas como republicanos fizeram referência ao problema das exorbitantes taxas de publicidade televisiva. O senador pelo estado de Nevada John Ensign, republicano, lamentava-se: “As emissoras não queriam nem pensar nas campanhas eleitorais porque era a época do ano em que ganhavam menos dinheiro devido ao baixo valor atribuído às cotas publicitárias durante esse período. Agora, as eleições são seus momentos preferidos já que, de fato, é uma das épocas do ano com mais ampla margem de lucros.” Finalmente, para que este projeto de lei fosse aprovado, se omitiram as cláusulas referentes ao “tempo de veiculação de propaganda pública”.
A sentença dada no caso do grupo de pressão conservador Citizens United neutraliza eficazmente a Reforma do financiamento das campanhas proposta por McCain-Feingold. Não há como imaginar ou mensurar o que será gasto nas eleições presidenciais de 2012. O senador por Wisconsin, Russ Feingold (co-autor do projeto), perdeu a oportunidade de ser reeleito em sua disputa contra o praticamente auto-financiado multimilionário Rum Johnson. O editorial do jornal Wall Street Journal celebrou a esperada derrota de Feingold. O jornal é propriedade da corporação transnacional News Corp, de Rupert Murdoch, que possui diversos veículos, incluindo ademais a cadeia de televisão Fox e que doou quase USd 2 milhões de dólares para a campanha dos republicanos.
“As eleições se transformaram em uma commodity, um produto fundamental para a alta lucratividade destas rádios e canais de televisão”, me disse no dia das eleições Ralph Nader, defensor dos consumidores e ex-candidato a presidente. Também falou: “As ondas de rádio e TV são públicas, e como sabemos, pertencem ao povo. O povo é o proprietário e as redes de rádio e televisão são as titulares das licenças para usar essas ondas, digamos que são como inquilinos. No entanto, para obter sua habilitação anual, não pagam nada para o FCC (Federal Communications Commission, a Comissão Federal de Comunicações, órgão regulador dos canais nos EUA). Assim, seria de grande eficácia persuasiva, se tivéssemos políticas públicas que impusessem módicas condições de preço (que os radiodifusores paguem pela permanência de suas outorgas!) para obter a licença que permite a estas redes de rádio e televisão aceder ao imensamente lucrativo controle das ondas públicas de radiofreqüência, 24 horas por dia. Poderíamos lhes dizer que, como parte do intercâmbio (do contrato social) por controlar estes bens comuns, deveriam destinar certa quantidade de tempo, tempo gratuito no rádio e na televisão, para os candidatos a cargos públicos através de eleições.”
Este tema deveria ser posto em debate nos grandes meios de comunicação, dado que é neles onde a maioria dos estadunidenses obtém informação. Mas as emissoras de rádio e televisão têm um profundo conflito de interesses. Em sua ordem de prioridades, seus lucros estão acima de nosso processo democrático. Seguramente não ouviremos falar deste tema nos programas de entrevistas políticas dos domingos pela manhã.
Amy Goodman é a âncora de Democracy Now!, um noticiário internacional transmitido diariamente em mais de 550 emissoras de rádio e televisão em inglês e em mais de 250 em espanhol. É co-autora do livro "Os que lutam contra o sistema: Heróis ordinários em tempos extraordinários nos Estados Unidos", editado por Le Monde Diplomatique Cono Sur
Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna.
Texto traduzido da versão em castelhano e revisado do original em inglês por Bruno Lima Rocha; originalmente publicado em português em Estratégia & Análise.
Amy Goodman
Democracy Now, Análise - Brasil de Fato.
Com o término das eleições de metade de mandato nos Estados Unidos, o maior vencedor ainda não foi declarado, porque a vitória foi dos grandes meios de comunicação. O maior perdedor, por enquanto, tem sido a democracia. Estas eleições legislativas de metade de mandato foram as mais caras na história dos Estados Unidos: custaram quase USd 4 bilhões de dólares, dos quais USd 3 bilhões foram gastos em publicidade. Pergunto o que aconteceria se o tempo publicitário para as campanhas fosse gratuito. Não se ouvem debates a este respeito, e não se ouvem porque as corporações (conglomerados empresariais, em geral, transnacionais) que manejam (e manipulam e controlam) os meios de comunicação de massa obtêm imensos ganhos com os anúncios publicitários das campanhas políticas. No entanto, as ondas hertzianas (que trafegam pelo espectro radioelétrico) utilizadas pelas empresas de mídia para emitir seus sinais são públicas.
Isto me recorda o livro escrito em 1999 pelo especialista em meios de comunicação Robert McChesney: “Rich Media, Poor Democracy” (Meios ricos, democracia pobre). Em seu livro, McChesney escreve: “Os radiodifusores têm pouco incentivo para brindar cobertura aos candidatos já que resulta de seu interesse forçá-los a publicitar suas campanhas.”
O grupo de investigação Wesleyan Media Project (Projeto de Wesleyano de Mídia), da Universidade Wesleyan, faz um acompanhamento da publicidade política. Depois da recente sentença da Suprema Corte no caso “Citizens United contra a Comissão Federal Eleitoral” pelo qual se autoriza às grandes corporações (conglomerados empresariais) a destinar somas ilimitadas de dinheiro à campanha publicitária dos candidatos, o projeto de pesquisa sobre o comportamento da mídia destaca que: “O tempo de transmissão destinado a publicidade tem-se saturado de anúncios relacionados com a Câmara de Representantes (deputados federais) e o Senado, que ocupam até 20% e 79%, respectivamente, do total de tempo que as TVs estão no ar”.
Evan Tracey, fundador e presidente do grupo de análise de campanhas publicitárias Campaign Media Analysis Group (Grupo de Análise das Campanhas na Mídia), predisse no passado mês de julho (de 2010), em declarações para o jornal USA Today, que: “Haverá mais dinheiro para ser investido do que espaço de transmissão para ser comprado”. Por sua vez, John Nichols, do semanário The Nation, comentou que nos amáveis primeiros tempos da publicidade política televisiva, os canais de TV nunca teriam permitido a transmissão de um anúncio a favor de um candidato, seguido de outro anúncio, apoiando o candidato concorrente (obs. do tradutor: as eleições parlamentares estadunidenses são distritais). Essa constatação, não levava em conta o patrimônio acumulado dos grandes meios. Mas, nos dias de hoje, veicular anúncios políticos é como alugar um imóvel. Bem vindos ao “mundo feliz” das campanhas feitas com bilhões de dólares.
No passado, já houve intentos de regular o uso das ondas hertzianas trafegando pelo espectro radioelétrico para que estejam a serviço da população durante as eleições. Nos últimos anos, a tentativa mais ambiciosa ficou conhecida como “Reforma do financiamento das campanhas eleitorais de McCain-Feingold”. Durante o debate sobre esta histórica legislação, tanto democratas como republicanos fizeram referência ao problema das exorbitantes taxas de publicidade televisiva. O senador pelo estado de Nevada John Ensign, republicano, lamentava-se: “As emissoras não queriam nem pensar nas campanhas eleitorais porque era a época do ano em que ganhavam menos dinheiro devido ao baixo valor atribuído às cotas publicitárias durante esse período. Agora, as eleições são seus momentos preferidos já que, de fato, é uma das épocas do ano com mais ampla margem de lucros.” Finalmente, para que este projeto de lei fosse aprovado, se omitiram as cláusulas referentes ao “tempo de veiculação de propaganda pública”.
A sentença dada no caso do grupo de pressão conservador Citizens United neutraliza eficazmente a Reforma do financiamento das campanhas proposta por McCain-Feingold. Não há como imaginar ou mensurar o que será gasto nas eleições presidenciais de 2012. O senador por Wisconsin, Russ Feingold (co-autor do projeto), perdeu a oportunidade de ser reeleito em sua disputa contra o praticamente auto-financiado multimilionário Rum Johnson. O editorial do jornal Wall Street Journal celebrou a esperada derrota de Feingold. O jornal é propriedade da corporação transnacional News Corp, de Rupert Murdoch, que possui diversos veículos, incluindo ademais a cadeia de televisão Fox e que doou quase USd 2 milhões de dólares para a campanha dos republicanos.
“As eleições se transformaram em uma commodity, um produto fundamental para a alta lucratividade destas rádios e canais de televisão”, me disse no dia das eleições Ralph Nader, defensor dos consumidores e ex-candidato a presidente. Também falou: “As ondas de rádio e TV são públicas, e como sabemos, pertencem ao povo. O povo é o proprietário e as redes de rádio e televisão são as titulares das licenças para usar essas ondas, digamos que são como inquilinos. No entanto, para obter sua habilitação anual, não pagam nada para o FCC (Federal Communications Commission, a Comissão Federal de Comunicações, órgão regulador dos canais nos EUA). Assim, seria de grande eficácia persuasiva, se tivéssemos políticas públicas que impusessem módicas condições de preço (que os radiodifusores paguem pela permanência de suas outorgas!) para obter a licença que permite a estas redes de rádio e televisão aceder ao imensamente lucrativo controle das ondas públicas de radiofreqüência, 24 horas por dia. Poderíamos lhes dizer que, como parte do intercâmbio (do contrato social) por controlar estes bens comuns, deveriam destinar certa quantidade de tempo, tempo gratuito no rádio e na televisão, para os candidatos a cargos públicos através de eleições.”
Este tema deveria ser posto em debate nos grandes meios de comunicação, dado que é neles onde a maioria dos estadunidenses obtém informação. Mas as emissoras de rádio e televisão têm um profundo conflito de interesses. Em sua ordem de prioridades, seus lucros estão acima de nosso processo democrático. Seguramente não ouviremos falar deste tema nos programas de entrevistas políticas dos domingos pela manhã.
Amy Goodman é a âncora de Democracy Now!, um noticiário internacional transmitido diariamente em mais de 550 emissoras de rádio e televisão em inglês e em mais de 250 em espanhol. É co-autora do livro "Os que lutam contra o sistema: Heróis ordinários em tempos extraordinários nos Estados Unidos", editado por Le Monde Diplomatique Cono Sur
Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna.
Texto traduzido da versão em castelhano e revisado do original em inglês por Bruno Lima Rocha; originalmente publicado em português em Estratégia & Análise.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Editor do Diário do Nordeste é demitido por matéria sobre livro marxista
Do Sindicato dos Jornalista do Ceará via Brasil de Fato
No momento em que a grande mídia distorce e critica o projeto de indicação aprovado na Assembleia Legislativa do Ceará, que propõe a criação do Conselho Estadual de Comunicação - sob a alegação de que vai "cercear a liberdade de expressão" -, o jornal Diário do Nordeste demitiu de forma arbitrária, no último dia 18 de outubro, o jornalista Dalwton Moura, por ter escrito e editado matéria no Caderno 3 sobre as revoluções marxistas que marcaram os séculos XIX e XX.
O caderno especial, de seis páginas, foi considerado pela direção da empresa "panfletário" e "subversivo", além de "inoportuno ao momento atual".Tendo, entre outras fontes, o filósofo Michael Löwi, que estaria em Fortaleza para lançar o livro "Revoluções" (com imagens que marcaram os movimentos contestatórios decisivos para a história dos últimos dois séculos), a matéria foi pautada pelo editor-chefe do jornal, Ildefonso Rodrigues, tendo sido sugerida pela historiadora e professora Adelaide Gonçalves, da UFC. No entanto, ao comunicar a demissão do jornalista, o editor-chefe se limitou a dizer que "não sabia o conteúdo da reportagem até vê-la publicada".
O caso do jornalista Dalwton Moura não se trata de demissão por delito de opinião, pois ele não emitiu, em qualquer momento, juízo de valor sobre o conteúdo da pauta. Perdeu o emprego muito menos por incompetência ou negligência na sua função. Ironicamente, o trabalhador foi dispensado simplesmente por cumprir uma pauta que, depois de publicada, percebeu-se ser contra os interesses da empresa. A direção do jornal não pode alegar, no entanto, que desconhecia o conteúdo da matéria, pois além de ter sido pautado pelo editor-chefe, o assunto foi relatado em, pelo menos, quatro reuniões de pauta que antecederam sua publicação.
A demissão do então editor do Caderno 3 expõe o abismo entre o discurso da grande mídia conservadora, que se diz ameaçada em sua liberdade de expressão - inclusive atacando com este falso argumento o projeto do Conselho de comunicação do Estado -, e suas práticas cotidianas, restritivas ao exercício profissional dos jornalistas, bem como à livre opinião de colaboradores e leitores. "O Sindicato dos Jornalistas do Ceará protesta contra esta demissão arbitrária e mantém sua luta pela verdadeira liberdade de expressão para os jornalistas e para todos os brasileiros, manifestada em projetos como o do Conselho de Comunicação", afirma o presidente do Sindjorce, Claylson Martins.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Os filhos da Teologia da Libertação
Análise, Brasil de Fato.
Frutos da “opção preferencial pelos pobres”, movimentos sociais, MST e Zapatista, dão vida a um “espírito” que nasceu na década de 1970
Marcelo Netto Rodrigues
Imagine a seguinte conjuntura política: ditaduras militares apoiadas pelos Estados Unidos em inúmeros países da América Latina. O período? Fins da Guerra Fria, década de 1980. Os potenciais “inimigos” do Tio Sam? Grupos guerrilheiros e partidos de esquerda. Certo? Errado. Para a CIA, “a Teologia da Libertação e as suas células conhecidas por CEBs (Comunidades Eclesiais de Base)” eram, há 30 anos, os reais agentes capazes de “desestabilizar” a região.
De acordo com o documento redigido pelo governo Reagan à época, conhecido como “Santa Fé II”, elaborado na cidade de mesmo nome, situada no Novo México, ambas representariam “uma doutrina política disfarçada de crença religiosa, com um significado antipapal e antilivre empresa, destinadas a debilitar a independência da sociedade frente ao controle estatal”. Ou seja, em outras palavras, “estariam a serviço do comunismo”, ou melhor, contra o capitalismo.
Setembro de 2010. O “perigo comunista” da Teologia da Libertação ressurge em noticiário nos Estados Unidos. O apresentador populista da Fox News, Glenn Beck, poucos dias após acusar Obama de socialista e de ser “um muçulmano que odeia os brancos” – em xenofóbico discurso ao lado de Sarah Palin, realizado de forma ultrajante no mesmo local e dia que, em 28 de agosto de 1963, Martin Luther King pronunciou o seu célebre discurso “I have a dream” –, muda de estratégia e volta a afirmar que Obama é cristão, mas o acusa de “algo pior”: seguir os ensinamentos “demoníacos” da Teologia da Libertação.
Com os olhos fixos na câmera, durante entrevista para a própria Fox News, Beck incita seus telespectadores: “Pergunte a qualquer um na Igreja Católica, eles viram, é marxismo fantasiado de religião. E aconteceu na América do Sul”. Num macarthismo anacrônico – para não dizer risível –, o teor de suas palavras e a sua expressão facial viajam no tempo como uma reencenação piorada daquela cena clássica do filme (subliminarmente anticomunista) Invasion of the Body Snatchers (1956), na qual o personagem principal grita histericamente para quem possa ouvi-lo para que não confiem nem em seus próprios vizinhos (pois estes podem ser “um deles”, sem que você nem desconfie).
Marxismo como instrumento
Tirando o fato concreto de que uma busca na página do World Factbook da CIA 2010 ainda revele que, sob o tópico “grupos de pressão política”, encontram-se na mesma categoria tanto a Igreja Católica e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no Brasil, quanto o Taleban, no Paquistão, e o Exército de Libertação Nacional (ELN) e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), no país vizinho, há muito de ficção quando se associa diretamente a Teologia da Libertação ao comunismo marxista e não este último e a própria Teologia da Libertação ao assim chamado cristianismo primitivo – época que se inicia com a morte de Jesus e vai até o ano de 325, quando Constantino transforma o Cristianismo em religião oficial do Império Romano.
Isso porque o que há na Teologia da Libertação, além da inspiração nos chamados primeiros cristãos, é o uso seletivo e crítico do marxismo como instrumento de análise para desvendar os mecanismos que levam as sociedades a terem estruturas econômicas e sociais injustas, com o intuito de demonstrar ao cristão como ele deve agir no mundo. Elementos como o ateísmo materialista, por exemplo, são rejeitados, e outros, assimilados, como a crítica do capitalismo e do poder das classes dominantes, a inevitabilidade do conflito social e a perspectiva da auto-emancipação dos explorados.
Na mesma lógica, Leonardo Boff, um dos principais teólogos da libertação, em seu livro O Caminhar da Igreja com os Oprimidos (1980), rejeita o materialismo dialético, mas reconhece o valor científico e político do materialismo histórico, como método que permite denunciar as falsificações ideológicas do capitalismo, e dar conta das verdadeiras causas que geram o empobrecimento. Diz ele: “Quando agentes pastorais mergulham no mundo cultural do pobre, não deixam de encontrar o marxismo, não como filosofia materialista e negadora de Deus, mas como o único instrumento a seu alcance para entender sua condição de explorados e como um caminho de organização, de formação de consciência crítica e de mobilização dos setores populares”.
Boff, ainda em outro livro, de co-autoria com seu irmão Clodovis Boff, Como fazer Teologia da Libertação (1986), detalha melhor essa afinidade eletiva: “Na Teologia da Libertação, o marxismo não é tratado como uma matéria em si mesmo, mas sempre da sua relação e em relação ao pobre. [Assim,] colocando-se firmemente ao lado dos pobres, teólogos da libertação questionam Marx: 'O que você pode nos dizer sobre a situação de pobreza e sobre os meios para superá-la?' Aqui, os marxistas são submetidos ao julgamento dos pobres e à sua causa, e não o contrário”.
Cristianismo Primitivo
Por outro lado, a associação entre os primeiros cristãos e as CEBs – comunidades compostas por membros das classes populares que, morando no mesmo bairro, se encontram para refletir e transformar a realidade, por meio do método ver-julgar-agir, a partir da leitura da Bíblia em articulação com os problemas reais da vida cotidiana – é repleta de sentido, já que entre os primeiros a “novidade” que chamava a atenção era que todos, pensando no bem-estar coletivo, usufruíam de seus bens em conjunto e haviam coletivizado a posse das coisas.
Tal ineditismo de conduta aliado a um constante ambiente de perseguições, viria a ser destacado por Engels, muitos séculos mais tarde, em 1894, no seu O Cristianismo Primitivo, texto no qual o parceiro de Marx enxerga pontos notáveis de contato entre a história do cristianismo primitivo e a do movimento proletário moderno: “Tal e qual o movimento proletário moderno, o cristianismo era em sua origem a expressão dos oprimidos e se apresentava primeiramente como a religião dos escravos, dos libertos, dos pobres, dos homens privados de direito e dos povos subjugados ou dispersos pelo Império Romano”.
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Sinais dos tempos
Escrito por Frei Betto
16-Set-2010
Do Correio da Cidadania
O mercado é o novo fetiche religioso da sociedade em que vivemos. Antigamente, nossos avós consultavam a Bíblia, a palavra de Deus, diante dos fatos da vida. Nossos pais, o serviço de meteorologia: "Será que vai chover?". Hoje, consulta-se o mercado: "O dólar desvalorizou? Subiu a Bolsa? Como oscilou o mercado de capitais?".
Diante de uma catástrofe, de um acontecimento inesperado, dizem os comentaristas econômicos: "Vamos ver como o mercado reage". Fico imaginando um senhor, Mr. Mercado, trancado em seu castelo e gritando pelo celular: "Não gostei da fala do ministro, estou irado." Na mesma hora os telejornais destacam: "O mercado não reagiu bem frente ao discurso ministerial".
Para as agências de publicidade, o mercado no Brasil compreende cerca de 40 milhões de consumidores. Neste país de 190 milhões de habitantes, uma minoria tem acesso aos bens supérfluos. Os demais, só aos de necessidade indispensável.
O grande desafio das pessoas em idade produtiva, hoje, é como se inserir no mercado. Devem ser competitivas, ter qualificação, disputar espaços. Sabem que o sistema recomenda não levarem a sério conotações éticas e encarar como quimérico um planejamento de inclusão das maiorias. O mercado é, agora, internacional, globalizado; move-se segundo suas próprias regras, e não de acordo com as necessidades humanas.
A crise da modernidade é, portanto, também a do racionalismo. No início da modernidade, principalmente na época dos iluministas, a religião era considerada superstição. Camponeses da Idade Média regavam seus campos com água benta, agradeciam aos padres (que, diga-se de passagem, cobravam pela água benta) e depois louvavam a Deus pela boa colheita. Até o dia em que apareceu um senhor oferecendo a eles um pozinho preto, o adubo, que também custava dinheiro, mas não dependia da ira ou do agrado divino - bastava aplicá-lo à terra e aquilo facilitava a colheita.
O adubo funcionou melhor que a água benta! Muitos camponeses perderam a fé, porque a concepção de Deus predominante na Idade Média era a de um Ser utilitário. (Por isso se costuma dizer, em teologia, que Deus não é nem supérfluo nem necessário; é gratuito, como todo amor).
Outrora, falava-se em produção; quem tinha um capital, precisava investi-lo, produzir. Hoje, fala-se em especulação. Dinheiro produz dinheiro. A cada dia, através de computadores, bilhões de dólares rodam o planeta em busca de melhores lucros. Passam da Bolsa de Singapura para a de Tóquio, desta para a de Buenos Aires, desta para a de São Paulo, desta para a de Nova York, e assim por diante. Agora, em Singapura, provavelmente estarão discutindo o que fazer com US$ 6 bilhões disponíveis no mercado.
Outrora, falava-se em marginalização. Alguém marginalizado no emprego ainda tinha esperança de voltar ao centro. Hoje, marginalização cedeu lugar a outro termo, exclusão - o ser humano excluído não tem esperança de volta, porque o neoliberalismo é intrinsecamente excludente. A exclusão não é um problema para ele, tal como a marginalização era para o liberalismo: é parte da lógica de crescimento do sistema e da acumulação de riquezas.
Antes, falava-se em Estado, o importante era fortalecer o Estado. Um ministro da ditadura militar chegou a declarar: "Vamos fazer crescer o bolo, depois haveremos de dividi-lo." Só que o bolo cresceu, e o gato comeu, não se viu o resultado. Aqueles mesmos políticos que advogavam o crescimento do Estado defendem, hoje, a sua destruição, com o sofisticado lema da ‘privatização’.
Não sou radicalmente contrário à privatização, nem estatista. Há países ricos - como a França e o Reino Unido - nos quais os serviços públicos estatais funcionam muito bem. Não é por serem públicas que as empresas e os serviços devem operar negativamente. A história é outra: muitos políticos, que deveriam ser homens públicos, estão prioritariamente ligados a empresas privadas, de maneira que não têm interesse em que as coisas públicas, estatais, funcionem bem. O maior exemplo disso é o serviço de saúde no Brasil. São US$ 8 bilhões circulando por ano nos planos privados de saúde, que atendem apenas 30 milhões de pessoas numa população de 190 milhões. Por que o SUS haveria de funcionar bem? Outrora, alguém ficava doente e dava graças a Deus por conseguir um lugar no hospital. Hoje, as pessoas morrem de medo de ir para o hospital. Hospital virou ante-sala de cemitério.
A privatização não é só econômica, é também filosófica, metafísica. Tem reflexos na nossa subjetividade. Também nos tornamos seres cada vez mais privatizados, menos solidários, menos interessados nas causas coletivas e menos mobilizáveis para as grandes questões. A privatização invade até mesmo o espaço da religião: proliferam as crenças ‘privatizantes’, que têm conexão direta com Deus. Isso é ótimo para quem considera que o próximo incomoda. É a privatização da fé, destituindo-a da sua dimensão social e política.
Enfim, hoje se fala em globalização; ótimo que o planeta tenha se transformado numa aldeia. O que preocupa é constatar que esse modelo é, de fato, a imposição ao planeta do paradigma anglo-saxônico. Melhor chamá-lo de globocolonização!
Frei Betto é escritor, autor de "Hotel Brasil – o mistério das cabeças degoladas" (Rocco), entre outros livros. Website: http://www.freibetto.org/
Twitter: @freibetto
16-Set-2010
Do Correio da Cidadania
O mercado é o novo fetiche religioso da sociedade em que vivemos. Antigamente, nossos avós consultavam a Bíblia, a palavra de Deus, diante dos fatos da vida. Nossos pais, o serviço de meteorologia: "Será que vai chover?". Hoje, consulta-se o mercado: "O dólar desvalorizou? Subiu a Bolsa? Como oscilou o mercado de capitais?".
Diante de uma catástrofe, de um acontecimento inesperado, dizem os comentaristas econômicos: "Vamos ver como o mercado reage". Fico imaginando um senhor, Mr. Mercado, trancado em seu castelo e gritando pelo celular: "Não gostei da fala do ministro, estou irado." Na mesma hora os telejornais destacam: "O mercado não reagiu bem frente ao discurso ministerial".
Para as agências de publicidade, o mercado no Brasil compreende cerca de 40 milhões de consumidores. Neste país de 190 milhões de habitantes, uma minoria tem acesso aos bens supérfluos. Os demais, só aos de necessidade indispensável.
O grande desafio das pessoas em idade produtiva, hoje, é como se inserir no mercado. Devem ser competitivas, ter qualificação, disputar espaços. Sabem que o sistema recomenda não levarem a sério conotações éticas e encarar como quimérico um planejamento de inclusão das maiorias. O mercado é, agora, internacional, globalizado; move-se segundo suas próprias regras, e não de acordo com as necessidades humanas.
A crise da modernidade é, portanto, também a do racionalismo. No início da modernidade, principalmente na época dos iluministas, a religião era considerada superstição. Camponeses da Idade Média regavam seus campos com água benta, agradeciam aos padres (que, diga-se de passagem, cobravam pela água benta) e depois louvavam a Deus pela boa colheita. Até o dia em que apareceu um senhor oferecendo a eles um pozinho preto, o adubo, que também custava dinheiro, mas não dependia da ira ou do agrado divino - bastava aplicá-lo à terra e aquilo facilitava a colheita.
O adubo funcionou melhor que a água benta! Muitos camponeses perderam a fé, porque a concepção de Deus predominante na Idade Média era a de um Ser utilitário. (Por isso se costuma dizer, em teologia, que Deus não é nem supérfluo nem necessário; é gratuito, como todo amor).
Outrora, falava-se em produção; quem tinha um capital, precisava investi-lo, produzir. Hoje, fala-se em especulação. Dinheiro produz dinheiro. A cada dia, através de computadores, bilhões de dólares rodam o planeta em busca de melhores lucros. Passam da Bolsa de Singapura para a de Tóquio, desta para a de Buenos Aires, desta para a de São Paulo, desta para a de Nova York, e assim por diante. Agora, em Singapura, provavelmente estarão discutindo o que fazer com US$ 6 bilhões disponíveis no mercado.
Outrora, falava-se em marginalização. Alguém marginalizado no emprego ainda tinha esperança de voltar ao centro. Hoje, marginalização cedeu lugar a outro termo, exclusão - o ser humano excluído não tem esperança de volta, porque o neoliberalismo é intrinsecamente excludente. A exclusão não é um problema para ele, tal como a marginalização era para o liberalismo: é parte da lógica de crescimento do sistema e da acumulação de riquezas.
Antes, falava-se em Estado, o importante era fortalecer o Estado. Um ministro da ditadura militar chegou a declarar: "Vamos fazer crescer o bolo, depois haveremos de dividi-lo." Só que o bolo cresceu, e o gato comeu, não se viu o resultado. Aqueles mesmos políticos que advogavam o crescimento do Estado defendem, hoje, a sua destruição, com o sofisticado lema da ‘privatização’.
Não sou radicalmente contrário à privatização, nem estatista. Há países ricos - como a França e o Reino Unido - nos quais os serviços públicos estatais funcionam muito bem. Não é por serem públicas que as empresas e os serviços devem operar negativamente. A história é outra: muitos políticos, que deveriam ser homens públicos, estão prioritariamente ligados a empresas privadas, de maneira que não têm interesse em que as coisas públicas, estatais, funcionem bem. O maior exemplo disso é o serviço de saúde no Brasil. São US$ 8 bilhões circulando por ano nos planos privados de saúde, que atendem apenas 30 milhões de pessoas numa população de 190 milhões. Por que o SUS haveria de funcionar bem? Outrora, alguém ficava doente e dava graças a Deus por conseguir um lugar no hospital. Hoje, as pessoas morrem de medo de ir para o hospital. Hospital virou ante-sala de cemitério.
A privatização não é só econômica, é também filosófica, metafísica. Tem reflexos na nossa subjetividade. Também nos tornamos seres cada vez mais privatizados, menos solidários, menos interessados nas causas coletivas e menos mobilizáveis para as grandes questões. A privatização invade até mesmo o espaço da religião: proliferam as crenças ‘privatizantes’, que têm conexão direta com Deus. Isso é ótimo para quem considera que o próximo incomoda. É a privatização da fé, destituindo-a da sua dimensão social e política.
Enfim, hoje se fala em globalização; ótimo que o planeta tenha se transformado numa aldeia. O que preocupa é constatar que esse modelo é, de fato, a imposição ao planeta do paradigma anglo-saxônico. Melhor chamá-lo de globocolonização!
Frei Betto é escritor, autor de "Hotel Brasil – o mistério das cabeças degoladas" (Rocco), entre outros livros. Website: http://www.freibetto.org/
Twitter: @freibetto
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Em nome de quê?
Se a repressão marcou a geração de meus pais e a revolução a de minha juventude, hoje o estímulo à perversão ameaça os jovens.
Frei Betto
Muitos pais, professores e psicólogos se queixam de que parcela considerável da juventude carece de referências morais. Inúmeros jovens mergulham de cabeça na onda neoliberal de relativização de valores. Tornam público o privado (vide YouTube), são indiferentes à política e à religião, praticam sexo como esporte e, em matéria de valores, preferem os do mercado financeiro.
Sou da geração que fez 20 anos de idade na década de 1960. Geração literalmente inovadora (a Bossa era Nova, o Cinema era Novo etc.), que injetava utopia na veia e se pautava por ideologias altruístas. Queríamos apenas mudar o mundo. Derrubar as ditaduras, a fome e miséria, as desigualdades sociais, o imperialismo e o moralismo.
Em nome do mundo sem opressão, que muitos de nós identificávamos com o socialismo, lutamos pela emancipação da mulher, contra o apartheid e em defesa dos povos indígenas. Sobretudo trouxemos ao centro da roda a questão ecológica.
Já a geração de nossos pais acreditava na indissolubilidade do casamento, na virgindade pré-conjugal como valor, na religião como inspiradora da conduta moral, na prevalência da produção sobre a especulação. Em nome de Deus, as consciências estavam marcadas pelo estigma do pecado.
Todas as gerações têm aspectos positivos e negativos. Se a minha se nutriu de ideologias libertárias, que nela incutiram espírito de sacrifício e solidariedade, a de meus pais acreditou na perene estabilidade das quatro instituições pilares da modernidade: a religião, a família, a escola e o Estado.
Esta geração da primeira metade do século XX não logrou superar o patriarcalismo, o preconceito a quem não lhe era racial e socialmente semelhante, a fé positivista nos benefícios universais da ciência e da tecnologia.
A geração posterior, a da segunda metade do século passado, promoveu a ruptura entre sentimento e sexualidade; idealizou os modelos soviético e chinês de socialismo, com seus gulags e suas "revoluções culturais"; e hoje troca a militância revolucionária pelo direito de ser burguesa sem culpa.
Ora, a crescente autonomia do indivíduo, apregoada pelo neoliberalismo, faz com que muitos jovens se perguntem: em nome de quê devemos aceitar normas morais além das que decido que me convêm? E as adotam convencidos de que elas possuem prazo de validade tão curto quanto o hambúrguer da esquina.
Se a repressão marcou a geração de meus pais e a revolução (política, sexual, religiosa etc.) a de minha juventude, hoje o estímulo à perversão ameaça os jovens. Respira-se uma cultura de desculpabilização, já que, na travessia do rio, se deu as costas à noção de pecado e ainda não se aportou na interiorização da ética. Parafraseando Dostoiévski, é como se Deus não existisse e, portanto, tudo fosse permitido.
Quem é hoje o enunciador coletivo capaz de ditar, com autoridade, o comportamento moral? A Igreja? A católica certamente não, pois pesquisas comprovam que a maioria de seus fiéis, malgrado proibições oficiais, usa preservativo, não valoriza a virgindade pré-matrimonial e frequenta os sacramentos após contrair nova relação conjugal. As evangélicas ainda insistem no moralismo individual, sem olho crítico para o caráter antiético das estruturas sociais e a natureza desumana do capitalismo.
Onde a voz autorizada? O Estado certamente não é, já que pauta suas decisões de acordo com o jogo do poder e o faturamento eleitoral. Hoje ele condena o desmatamento da Amazônia, os transgênicos, o trabalho escravo, e amanhã aprova seja lá o que for para não perder apoio político.
O enunciador coletivo, o Grande Sujeito, existe: é o Mercado. Ele corrompe crianças, no modo de induzi-las ao consumismo precoce; corrompe jovens, no modo de seduzi-los a priorizar como valores a fama, a fortuna e a estética individual; corrompe famílias através da hipnose televisiva que expõe nos lares o entretenimento pornográfico. E para proteger seus interesses, o Mercado reage violentamente quando se pretende impor-lhe limites. Furioso, grita que é censura, é terrorismo, é estatização, é sabotagem!
As futuras gerações haverão de conhecer a barbárie ou a civilização? A neurose da competitividade ou a ética da solidariedade? A globocolonização ou a globalização do respeito e da promoção dos direitos humanos - a dimensão social do amor?
Pais, professores, psicólogos, e todos que se interessam pela juventude, estão desafiados a dar resposta positiva a tais questões.
Frei Betto é escritor, autor de "A mosca azul - reflexão sobre o poder" (Rocco), entre outros livros
www.freibetto.org
Twitter:@freibetto
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Os Indiferentes
Antonio Gramsci
Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.
A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.
A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar.
A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso.
Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então se zangam, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis.
Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.
A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.
Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir o pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.
Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Conflito em torno do cumprimento de direitos humanos é inevitável, diz filósofo argentino
Segundo Enrique Dussel, a conquista de direitos se dá pela mobilização dos grupos excluídos que, em geral, questionam a legitimidade de direitos já consagrados, criando o choque de interesses
As divergências e os conflitos em torno do estabelecimento e do cumprimento dos direitos humanos são inevitáveis, garante o filósofo argentino Enrique Dussel, fundador da Filosofia da Libertação, corrente filosófica criada na América Latina no final da década de 1960. Para Dussel, como os direitos são conquistados mediante a mobilização dos grupos excluídos e, em geral, questionam a legitimidade de direitos já consagrados, o choque de interesses é inevitável.
“Quando as vítimas [de um sistema] se dão conta de que seus direitos não estão incluídos na lista de garantias vigentes, elas rompem com o consenso”, disse Dussel à *Agência Brasil*, ao participar da 1ª Semana de Educação em Direitos Humanos, evento realizado pela Universidade Metodista e que ocorre até amanhã (19), em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo.
Segundo ele, não há como estabelecer uma lista de direitos fundamentais que sirva adequadamente a todas as épocas e situações. “O consenso em torno dos direitos em vigor, num determinado momento histórico, é fruto de um movimento anterior e toda vez que os dominados – aqueles que não participaram do acordo que definiu esses direitos – passam a exigir um novo direito, os dominadores passam a reprimir essa nova consciência crítica. Está gerado o conflito”, afirmou.
“Durante os conflitos, o direito já consagrado, muitas vezes, perde sua legitimidade enquanto as novas exigências, quando legítimas, pouco a pouco, passam a ser aceitas, terminando por se tornar o novo consenso. De qualquer forma, sempre haverá excluídos”, comentou Dussel, que hoje é professor da Universidade Metropolitana do México, país onde se exilou em meados da década de 1970, fugindo da perseguição sofrida durante a violenta ditadura militar argentina. Para ele, a América Latina experimenta a oportunidade de uma “segunda independência”.
“A experiência política latino-americana é uma novidade na história mundial. É algo muito, muito importante, a eleição de um indígena [Evo Morales] para a presidência da Bolívia; um operário [Luiz Inácio Lula da Silva] no Brasil; um ex-guerrilheiro como Maurício Funes em El Salvador; um bispo progressista [Fernando Lugo] no Paraguai; um Rafael Correa [presidente do Equador] e um Hugo Chávez [presidente da Venezuela]. Temos um verdadeiro laboratório político aqui”, comentou Dussel, entusiasta de iniciativas como a criação, na Venezuela, do Poder Cidadão, criado para garantir a participação institucional da população na estrutura de poder e para fiscalizar os outros Quatro Poderes (Executivo, Legislativo, Judiciário e Eleitoral).
Filipe Rodrigues
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
ÁGUA COMO MERCADORIA
Frei Betto
O capitalismo mercantiliza os bens da natureza, os frutos do trabalho humano, todos os aspectos de nossa vida. Aprendemos na escola: 71% de nosso corpo são água, a mesma proporção existente em nosso planeta.
Bebemos litros de água no decorrer do dia. Do velho e bom filtro? Não. Em geral, de garrafas pet vendidas em supermercados. Quem garante que a água engarrafada é mais potável que a filtrada em casa? A propaganda; ela faz nossa cabeça e direciona nossos hábitos.
De olho no faturamento, empresas transnacionais procuram incutir na opinião pública a ideia da água como mercadoria de grande valor econômico, capaz de tornar-se uma fonte de renda para um país como o Brasil. Retira-se da água sua dimensão de direito humano, seu caráter vital, sua dimensão sagrada. Quem se opõe a esta ideologia é rotulado como “contrário ao progresso”. Porém, é na defesa da água como direito e bem comum que reside a possibilidade de salvarmos o planeta Terra – “Planeta-Água” – da desolação, e assegurarmos a vida das gerações futuras.
O raciocínio da mercantilização da água é simples: tendo que pagar, a sua utilização será mais racional e cuidadosa. Ora, isso não implica incluir a água na categoria de mercadoria regida pelas leis do mercado.
Este argumento tem sua parte de verdade – cuida-se melhor daquilo que é mais caro. As consequências, porém, podem ser graves se a água for regida pela lei da oferta e da procura. A cobrança pelo uso da água pode ser um mecanismo de gerenciamento desde que se estabeleçam preços diferenciados conforme a concessão de uso. Uma fábrica de cerveja retira do poço artesiano toda água que necessita, sem pagar nada por ela. Depois descarrega parte dessa água, agora poluída por detergentes e dejetos, no rio mais próximo. O lucro com a venda da cerveja é todo dela; a perda no lençol subterrâneo e a poluição do rio são da comunidade local.
Uma boa gestão cobraria preço baixo pela água usada como insumo e alto sobre o esgoto industrial, de modo a obrigar a indústria a filtrar dejetos antes de lançá-los de volta ao rio. Também é preciso estabelecer preços diferenciados conforme o uso da água (consumo humano, esgoto, energia elétrica, produção industrial, agricultura irrigada, lazer etc).
Nas zonas urbanas já pagamos pelos serviços de captação, tratamento e distribuição da água, não pela água em si. A novidade é que, além dos serviços, deveremos pagar também pelo metro cúbico de água utilizada. Se este preço adicional vier a excluir alguém do acesso à água, tal medida será eticamente inaceitável.
O princípio que obriga a quem usa, pagar, não pode ser aceito ao contrário: “quem não paga, não usa.” Não sendo a água uma mercadoria, mas bem de domínio público, o princípio só se aplica como norma reguladora de uso, seja quantitativa (quem usa mais água, paga mais), seja qualitativamente (quem usa para fins lucrativos paga mais do que quem usa para consumo pessoal). Se assim não for, a água deixará de ser direito de todos os seres vivos, criando-se um impasse ético e uma tragédia: a dos excluídos da água.
Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Marcelo Barros, de “O amor fecunda o Universo – ecologia e espiritualidade” (Agir), entre outros livros. www.freibetto.org - twitter:@freibetto
Filipe Rodrigues
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Vergonha pouca é bobagem (talvez a mão não seja invisível)
São Paulo, domingo, 25 de julho de 2010
Folha de São Paulo
CLÓVIS ROSSI
SÃO PAULO - A América Latina é a região mais desigual do mundo. O Brasil é o 9º colocado nesse desgraçado torneio da desigualdade, revela o Índice de Desenvolvimento Humano ajustado para a desigualdade, novo indicador do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) .
Já seria motivo suficiente para sentir vergonha, mas o relatório oculta o pior: o tal índice de Gini, usado para medir a desigualdade, abarca apenas as diferenças entre salários, que, de fato, vêm caindo no Brasil nos últimos anos.
Não é preciso ter PhD em Harvard para saber que a desigualdade mais obscena não é entre assalariados, mas entre renda do capital e renda do trabalho.
Claudio Dedecca, professor do Instituto de Economia da Unicamp, chegou a apontar um eventual aumento nessa desigualdade, a partir da informação de que, "nas pesquisas que apontam queda da desigualdade, só entram os ganhos salariais e com a rede de proteção social, como o Bolsa Família e a aposentadoria" .
"Tais números equivalem apenas a 40% do PIB, já que os pesquisadores não têm acesso à renda com ganho de capital das classes A e B".
Dois dados dão razão a Dedecca: estudo de três agências da ONU mostraram que "juros, aluguéis e lucros foram os itens da renda brasileira que mais cresceram desde a última década, superando o rendimento dos trabalhadores" .
Dado número dois: a transferência de renda para 12,6 milhões de famílias pobres custa anualmente R$ 13,1 bilhões. Já a transferência de renda para os mais ricos, na forma de juros pelos títulos públicos, foi, no ano passado, de R$ 380 bilhões. Ou seja, vai 30 vezes mais dinheiro público para um punhado de famílias (quantas? 2 milhões, 3 milhões talvez) do que para 12,6 milhões de pobres.
Mesmo assim, faz-se ensurdecedor silêncio a respeito.
Filipe Rodrigues
Folha de São Paulo
CLÓVIS ROSSI
Já seria motivo suficiente para sentir vergonha, mas o relatório oculta o pior: o tal índice de Gini, usado para medir a desigualdade, abarca apenas as diferenças entre salários, que, de fato, vêm caindo no Brasil nos últimos anos.
Não é preciso ter PhD em Harvard para saber que a desigualdade mais obscena não é entre assalariados, mas entre renda do capital e renda do trabalho.
Claudio Dedecca, professor do Instituto de Economia da Unicamp, chegou a apontar um eventual aumento nessa desigualdade, a partir da informação de que, "nas pesquisas que apontam queda da desigualdade, só entram os ganhos salariais e com a rede de proteção social, como o Bolsa Família e a aposentadoria" .
"Tais números equivalem apenas a 40% do PIB, já que os pesquisadores não têm acesso à renda com ganho de capital das classes A e B".
Dois dados dão razão a Dedecca: estudo de três agências da ONU mostraram que "juros, aluguéis e lucros foram os itens da renda brasileira que mais cresceram desde a última década, superando o rendimento dos trabalhadores" .
Dado número dois: a transferência de renda para 12,6 milhões de famílias pobres custa anualmente R$ 13,1 bilhões. Já a transferência de renda para os mais ricos, na forma de juros pelos títulos públicos, foi, no ano passado, de R$ 380 bilhões. Ou seja, vai 30 vezes mais dinheiro público para um punhado de famílias (quantas? 2 milhões, 3 milhões talvez) do que para 12,6 milhões de pobres.
Mesmo assim, faz-se ensurdecedor silêncio a respeito.
Filipe Rodrigues
sexta-feira, 16 de julho de 2010
A mídia na formação mental
Zillah Branco *
Já se foi o tempo em que a TV podia contribuir na formação mental de um público carente de informação geral e de exemplos enobrecedores do comportamento humano. Ajudava a família a debater com os filhos temas que tocavam os sentimentos mais profundos que ultrapassavam as experiências do dia-a-dia por meio de notícias ou novelas bem orientadas.
Hoje a informação é transmitida com base nos princípios do mercado publicitário, visando lucro financeiro ou político. Para que o entrevistador se liberte do ultrajante “dever”(estratégico) de atenuar o aspecto criminoso de um famoso goleiro de grande clube de futebol que conduziu a ex-namorada a uma morte horrorosa com requintes de crueldade abjectas, convidam um especialista em psicologia que vai dizer que “a quebra da visão mítica que as crianças têm de um ídolo é importante para não ficarem alienadas em relação à realidade humana como quando acreditaram em Papai Noel”. Refiro-me ao que assisti no dia 7 de Julho no Jornal das Dez (22h) da Globo que convidou um eminente profissional da elite para explicar a surpresa que a sociedade vive diante do comportamento do goleiro Bruno considerado uma figura pública promovida a ídolo da juventude das torcidas de futebol no Brasil.
Este caso esclarece uma prática aplicada à estratégia da mídia, em especial da Globo que congrega bons profissionais e excelente técnica jornalística, que manipula os seus valores (sobretudo dos seus funcionários mas, o que é pior, pela ação deles o do conteúdo ético das mensagens) parecendo uma empresa de comunicação neutra e deixando que um especialista (que deve entender do assunto para ensinar cientificamente aos telespectadores o lado certo das coisas) explique a normalidade de um ídolo nacional da juventude que se torna um criminoso capaz de sequestrar, ameaçar de morte, impor um abortivo até chegar ao comando de um assassinato. A quem pedir que proteja a população brasileira da desinformação midiática e também dos especialistas irresponsáveis? A Deus?
Na sequencia destes programas de horror que invadem as casas de qualquer pessoa, assiste-se ainda ao jogo mesquinho de poder entre policias de dois
Estados brasileiros, onde o discurso midiático insinua haver qualquer anterior compromisso em defesa do criminoso que foi denunciado pela vítima há 8 meses atrás mas os exames comprovativos ficaram ocultos até agora. Verdade também? Será que vai tão mal a polícia como a mídia e os especialistas escolhidos? Todo o desenvolvimento alcançado pelo governo Lula estará sujeito ao poder da velha oligarquia que age segundo interesses pessoais, vaidades, competições e incompetências na orientação da vida nacional? Não há fiscalização dos serviços de utilidade pública – incluindo a saúde mental e a formação cultural – que previna tanta degradação ética?
Aparentemente a mídia relata tudo democraticamente ao invadir e até se antecipar no julgamento e na apresentação de provas de um processo que mal começou. E começou mal, opondo duas organizações policiais que têm a obrigação de somar os seus esforços para esclarecer um problema que abalou a nação. Com isto alimenta possiveis torcidas para o jogo em que a bola é um crime pavoroso. E fala e repete o pouco que sabe durante 24 horas do dia, dando ênfase à sua hipótese, que já é apresentada como uma tese, de que uma figura pública de prestígio nacional até agora impoluto organiza um sequestro sequido de morte com requintes bárbaros para desaparecer o cadáver provavelmente devorado por cães treinados por um ex-policial expulso e rouba o bebê, seu filho, que no fim é encontrado.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Onze mulheres
No dia da morte de Eliza Samúdio - jovem que teve um breve relacionamento com o jogador de futebol Bruno - onze mulheres morreram vítima de violência de parceiros, namorados, maridos ou equivalente. Eliza foi estrangulada, esquartejada e enterrada em local ainda não sabido.
Os detalhes da morte das outras dez mulheres não são conhecidos porque seus parceiros não eram figuras públicas. Mas nem por isso os crimes dos quais elas foram vítimas são menos importantes.
Por isto estas onze vidas nos levam a uma só conclusão: onde está a igualdade entre os homens e as mulheres? Sinto que ficou perdida em algum discurso belo do ano de 1968 quando tal tema ganhou relevância mundial.
Sim as mulheres ampliaram seu poder na nossa sociedade. Chamo de poder a relação entre as pessoas e não algo que alguém detém.
Elas hoje decidem sua vida profissional, são consumidoras com notável poder de compra (item fundamental no mundo do Capital), e colocam em suas camas quem desejam, sem se deixar levar por pressões exteriores. Avanços notáveis.
Elas hoje sofrem preconceitos no trabalho, por vezes fazem do consumo uma fuga, são agredidas por seus companheiros, sem que a sociedade articule soluções de fato.
Temos uma nova e muito consistente legislação sobre o tema. Uma Lei que leva o nome de uma guerreira, Maria da Penha. Mulher que por pouco não entrou para as estatísticas como vítima fatal de um marido furioso e descontrolado. Mulher que carrega, pelo resto dos seus dias, as marcas do machismo tropical.
Mas é pouco, muito pouco. A verdadeira mudança ainda não aconteceu.
As mulheres no Brasil vivem – ainda – como cidadãs de segunda categoria. Têm menores salários, menor participação política e, na maioria das mentes masculinas, servem para algumas tarefas menos importantes. No trânsito, na escola, na família e no trabalho elas ainda são vistas como alguém, verdadeiramente, menos importante.
As heroínas que habitam nosso país lutam batalhas inglórias e muitas vezes pagam com a própria vida a coragem que têm de ser MULHER.
Mesmo assim a revolução inacabada em busca de isonomia plena nas relações entre homens e mulheres não pode ser esquecida.
A luta diária de cada mulher é um épico que tem que ser vivido sem intervalos. O machismo é forte e se recria a cada dia. Como já cantado pelo poeta: “o macho adulto branco, sempre no comando” permanece como realidade intocável no nosso cotidiano.
O espaço para a expansão do “mundo feminino” está todo aí, na política, nas universidades, nas grandes corporações, nas ONGs, na mídia e, antes de mais nada, em cada casa de nosso vasto território.
Um basta às atrocidades é fundamental. A caminhada é longa. O caminho tortuoso. Mas se as conquistas não podem ser desprezadas, o trabalho no porvir deve ser mais do que transpiração.
A grande transformação feminina ainda estar por acontecer: mudar, definitivamente, a consciência dos homens!
Romilson Madeira, jornalista e publicitário.
Mestre em Ciências da Comunicação pela USP - Universidade de São Paulo.
terça-feira, 13 de julho de 2010
CPI DO MST: “Não identificamos um centavo de desvio de recurso público”, afirma relator da CPI
Veja que delírio. Vamos esperar a retratação? Ou não?
Capa da Revista Veja ao abrir a CPI
Como é que é? Por Aline Scarso
Da Radioagência NP
Não há desvio de dinheiro público para a ocupação de terra no Brasil.
Foi o que concluiu o relatório da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito), que investigou a ligação entre entidades da reforma agrária e ministérios do governo.
Jilmar Tatto (relator), Almeida Lima (presidente) e
Onxy Lorenzoni (vice-presidente) em sessão da CPMI
No total, foram realizadas treze audiências públicas em oito meses.
A CPMI também investigou as contas de dezenas de cooperativas de agricultores e associações de apoio à reforma agrária.
Para o relator da CPMI, deputado federal Jilmar Tatto (PT/SP), “foi uma CPMI desnecessária”.
“São entidades sérias que desenvolvem um trabalho de aperfeiçoamento e de qualificação técnica do homem do campo. O que deu para perceber foi que a oposição, principalmente o DEM e o PSDB, estavam com uma política de criminalizar o movimento social no Brasil. Tanto é verdade que, depois de instalada a CPMI, eles praticamente não apareceram nas reuniões.”
O deputado federal Onxy Lorenzoni (DEM/RS) pediu vista do relatório durante a última sessão. Com isso, uma nova reunião foi marcada para a próxima quarta-feira (14). A expectativa é de que a bancada ruralista coloque em votação um relatório paralelo à relatoria oficial, mesmo não tendo participado das audiências de investigação.
Abaixo, leia entrevista com o deputado federal Jilmar Tatto (PT/SP).
quarta-feira, 7 de julho de 2010
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Por uma universidade pública
FRANCISCO DE OLIVEIRA, PAULO ARANTES, LUIZ MARTINS e J. SOUTO MAIOR
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A dificuldade econômica da universidade pública na atualidade é fruto de uma negligência proposital do Estado com o ensino público
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O reitor da Universidade de São Paulo publicou neste espaço ("Mecenato e universidade", 10/6) artigo com alguns argumentos que precisam ser democraticamente contrapostos. Para ele, os problemas da USP partem de uma razão econômica.
A saída que expõe é uma contradição em termos: o ingresso de dinheiro privado para a melhoria da universidade pública. Para proteger a universidade pública, que é melhor que a privada, diz que a universidade pública deve abrir suas portas para o dinheiro privado.
No fundo, o que a sua solução esconde é a tentativa de privatizar o ensino público. Ora, não se tendo conseguido fazer com que as entidades privadas prevalecessem no cenário educacional, busca-se fazer com que o ensino público forneça o material humano necessário para os fins da iniciativa privada.
A dificuldade econômica pela qual passa a universidade pública é fruto de uma negligência proposital do Estado com o ensino público, que se pretende compensar com o investimento privado.
Este último cria, na verdade, uma perigosa promiscuidade que desvirtua a razão de ser do ensino público, que deve se voltar para os problemas sociopolítico-econômicos gerais do país.
Mas mais grave ainda é a forma pela qual se vislumbra tal "parceria". Na Faculdade de Direito, ela se fez para duvidosas reformas arquitetônicas que nada acrescentaram à melhoria do ensino. Além disso, para se chegar a tanto, foram desrespeitados diversos preceitos da ordem jurídica. O que o reitor chama de "modernização" constituiu grave ilegalidade.
Cumpre resgatar o respeito à ordem jurídica, ainda mais à luz do grotesco episódio de transposição dos livros das bibliotecas departamentais, da noite para o dia, para um prédio desprovido de condições, e cuja devolução ao local de origem, por determinação do Ministério Público, vem se arrastando há mais de três semanas...
Tais ilegalidades justificariam um processo de improbidade administrativa contra o reitor, que, além do mais, em entrevista recente à Rede Bandeirantes, referiu-se à USP, faltando com o decoro acadêmico mínimo, como "terra de ninguém", "tomada por invasores" e "assemelhada a morros do Rio de Janeiro", em vias de "virar um Haiti".
O grande passo que precisa ser dado pela USP é a sua reestruturação, buscando a democratização interna e externa, mediante o voto universal, condição para uma estatuinte e um processo rumo à superação do vestibular, visando o acesso universalizado à universidade pública, tal como é no México e na Argentina há quase um século.
O reconhecimento republicano da igualdade de voto e de cidadania de professores, estudantes e trabalhadores supõe o respeito pleno às manifestações dos servidores que legitimamente lutam por direitos.
A reitoria afirma que os trabalhadores em greve estão cometendo uma ilegalidade e comete o abuso de cortar o ponto de mil servidores, mirando com suas punições principalmente alguns de menor salário.
Mas a greve é um direito fundamental consagrado e, sobretudo, se justifica quando os trabalhadores são atingidos, na sua concepção, por ilegalidades cometidas pelo empregador. Negar a greve como um direito e fixar represálias ou coações constitui, por si, um grave atentado à democracia.
Todos os que prezam o regime democrático devem se alinhar com os trabalhadores da USP, que fazem história com suas lutas, contribuindo vivamente para a democratização da universidade, tal como os operários do ABC que, nos idos de 1978-80, desafiaram publicamente a repressão e levaram à reconstrução da ordem jurídica do país.
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FRANCISCO DE OLIVEIRA é professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH-USP).
PAULO ARANTES é professor da FFLCH-USP. LUIZ RENATO MARTINS é professor da Escola de Comunicações e Artes da USP.
JORGE LUIZ SOUTO MAIOR é professor associado da Faculdade de Direito da USP.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Pileque precoce
Escrito por Frei Betto
31-Mar-2010
Pesquisas indicam que o perfil preponderante do jovem brasileiro de hoje é, ao contrário da minha geração, conservador, individualista, distante daqueles que, em meados do século XX, queriam mudar o mundo.
Agora, ele se mostra mais preocupado em ter um bom emprego do que motivações ideológicas; menos propenso a riscos e mais apegado à família. A relação com a sociedade é mais virtual que real: fechado em seu quarto, ele nem precisa rezar "venham todos ao meu reino", pois tudo lhe chega através do telefone, da TV, da internet, do MP3.
A cultura consumista a todos nós oferece, em cálice dourado, o elixir da eterna juventude. Os jovens não querem deixar de ser jovens; adultos e idosos insistem em imitar os jovens. E o principal fator de afirmação é a auto-imagem, a valorização da estética.
O jovem atual não quer se arriscar; anseia por experimentar. Na falta de motivação religiosa, experiência espiritual e ideologia altruísta, tende a buscar na bebida e na droga a alteração de seu estado de consciência. Sem isso não se sente suficientemente relaxado, loquaz, divertido e ousado.
É óbvio que a mídia dita padrões de comportamento, hábitos de consumo e paradigmas ideológicos. A diferença é que tudo isso chega ao jovem de tal forma bem embalado em papel brilhante e fita colorida que ele nem percebe o quanto é vulnerável à ditadura do consumismo.
No Brasil, a ingestão de bebidas alcoólicas é legalmente proibida a menores de 18 anos (nos EUA, 21 anos). A fiscalização pouco funciona e o Estado permite a publicidade de cerveja a qualquer hora em rádio e TV – concessões públicas – e o estímulo ao consumo precoce. Inclusive a utilização publicitária de pessoas famosas das áreas de entretenimento, artes e esportes para suscitar em crianças e jovens reações miméticas de consumo de álcool.
Dados do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) informam que 42% das crianças brasileiras com idade entre 10 e 12 anos já consumiram bebida alcoólica, e 10% dos jovens de 12 a 17 anos podem ser classificados como dependentes de álcool.
Os adolescentes acreditam que um copo de chope não implica risco à saúde. Talvez. O problema é que, ao se enturmar num bar, ele bebe oito ou dez. Ou apela para o mais barato, no duplo sentido da palavra, custo e efeito: uma garrafa de cachaça ou vodca custa menos que uma rodada de chope e provoca rápido "um barato".
O Ministério da Saúde já calculou quanto o alcoolismo custa aos cofres públicos? Quanto gasta o INSS com os alcoólicos afastados do trabalho por razões de dependência? De que adiantam as campanhas de prevenção se atletas de renome fazem propaganda de bebida alcoólica?
31-Mar-2010
Pesquisas indicam que o perfil preponderante do jovem brasileiro de hoje é, ao contrário da minha geração, conservador, individualista, distante daqueles que, em meados do século XX, queriam mudar o mundo.
Agora, ele se mostra mais preocupado em ter um bom emprego do que motivações ideológicas; menos propenso a riscos e mais apegado à família. A relação com a sociedade é mais virtual que real: fechado em seu quarto, ele nem precisa rezar "venham todos ao meu reino", pois tudo lhe chega através do telefone, da TV, da internet, do MP3.
A cultura consumista a todos nós oferece, em cálice dourado, o elixir da eterna juventude. Os jovens não querem deixar de ser jovens; adultos e idosos insistem em imitar os jovens. E o principal fator de afirmação é a auto-imagem, a valorização da estética.
O jovem atual não quer se arriscar; anseia por experimentar. Na falta de motivação religiosa, experiência espiritual e ideologia altruísta, tende a buscar na bebida e na droga a alteração de seu estado de consciência. Sem isso não se sente suficientemente relaxado, loquaz, divertido e ousado.
É óbvio que a mídia dita padrões de comportamento, hábitos de consumo e paradigmas ideológicos. A diferença é que tudo isso chega ao jovem de tal forma bem embalado em papel brilhante e fita colorida que ele nem percebe o quanto é vulnerável à ditadura do consumismo.
No Brasil, a ingestão de bebidas alcoólicas é legalmente proibida a menores de 18 anos (nos EUA, 21 anos). A fiscalização pouco funciona e o Estado permite a publicidade de cerveja a qualquer hora em rádio e TV – concessões públicas – e o estímulo ao consumo precoce. Inclusive a utilização publicitária de pessoas famosas das áreas de entretenimento, artes e esportes para suscitar em crianças e jovens reações miméticas de consumo de álcool.
Dados do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) informam que 42% das crianças brasileiras com idade entre 10 e 12 anos já consumiram bebida alcoólica, e 10% dos jovens de 12 a 17 anos podem ser classificados como dependentes de álcool.
Os adolescentes acreditam que um copo de chope não implica risco à saúde. Talvez. O problema é que, ao se enturmar num bar, ele bebe oito ou dez. Ou apela para o mais barato, no duplo sentido da palavra, custo e efeito: uma garrafa de cachaça ou vodca custa menos que uma rodada de chope e provoca rápido "um barato".
O Ministério da Saúde já calculou quanto o alcoolismo custa aos cofres públicos? Quanto gasta o INSS com os alcoólicos afastados do trabalho por razões de dependência? De que adiantam as campanhas de prevenção se atletas de renome fazem propaganda de bebida alcoólica?
terça-feira, 15 de junho de 2010
Irã: quem atira a primeira pedra?
Escrito por Frei Betto
O presidente Lula empreendeu uma delicada operação diplomática para evitar que o Irã utilize a energia nuclear para fins bélicos. As nações mais poderosas do mundo, capitaneadas pelos EUA, logo expressaram sua indignação e discordância: como um "paiseco" como o Brasil ousa querer ditar regras na política internacional?
Marx, Reich e Erich Fromm já nos haviam prevenido que preconceito de classe costuma ser um tabu arraigado. Como alguém que nasceu na cozinha tem o direito de ocupar a sala de jantar?
Pelo critério de George Bush, lamentavelmente preservado por Obama, o Irã faz parte das nações que integram o "eixo do mal". Não morro de amores pela terra dos aiatolás, considero o governo iraniano uma autocracia fundamentalista e discordo do modo patriarcal que o Irã trata as suas mulheres, como seres de segunda classe. Diga-se de passagem, assim também faz o Vaticano, razão pela qual as mulheres são impedidas de acesso ao sacerdócio.
Mas não custa questionar o cinismo dos senhores do mundo com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU: por que Israel tem o direito de possuir arsenal nuclear e o Irã não? Ele jogaria uma bomba nuclear sobre outras nações? Ora, isso os EUA já fizeram, em 1945, sacrificando milhares de vidas inocentes em Hiroshima e Nagasaki.
O Irã desencadearia uma guerra mundial? Ora, o Ocidente civilizado já promoveu duas, a segunda vitimando 50 milhões de pessoas. O nazismo e o fascismo surgiram no Oriente? Todos sabemos: foram criação diabólica de dois países considerados altamente civilizados, Alemanha e Itália.
Os árabes, ao longo de 800 anos, ocuparam a Península Ibérica. Deixaram um lastro de cultura e arte. A Europa ocupou e saqueou a África e a Ásia, e o lastro é de miséria, mortandade e extorsão. O Irã é uma ditadura? Quantas não foram implantadas na América Latina pela Casa Branca? Inclusive a do Brasil, que durou 21 anos (1964-1985). Há pouco, a Casa Branca apoiou o golpe militar que derrubou o governo democrático de Honduras.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
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